sábado, 13 de outubro de 2012

MADALENA E O SEMIDEUS (UMA HISTÓRIA DE AMOR)

Madalena e o Semideus
(Uma historia de amor)
1 -
Jesus morava de um lado da rua e ela do outro, só que de frente da casa de Jesus havia um quintal imenso, (naquela época, mesmo nas casas de gente paupérrima se jogava comida fora, como prova de fartura, e os terrenos não fugiam às regras - eram grandes) e, como tudo era exagerado, aquele quintal baldio parecia mais um sitio lá no Japão.  
2-
Madalena morava pegada a este quintal imenso e os fundos de sua casa, eram cercados por uma tela de arame, como se fosse uma rede de travas de futebol - para divisar os terrenos - ali, os pintos passavam pelos buracos e as galinhas ficavam piando do outro lado. De vez em quando, elas socavam suas cabeças avermelhadas - com cara de membro sexual masculino - e danavam a piar para chamar seus pintos que acabavam se afastando de suas gloriosas mães.
3 -
Madalena era uma mulata fogosa e de corpo estrutural, tinha vinte e seis anos e era daquelas que nem o diabo podia. Sempre que se inventava alguma festa lá estava ela se sacolejando toda, qual uma cobra no asfalto quente. Enquanto que Jesus a espiava de longe, com cara de menino maroto. Na verdade, Madalena nem o notava sempre que estava em seu doce mundo da gandaia.
4 -
Jesus era um menino ingênuo e tímido, exceto quando ele bebia vinho na festa de Cosme e Damião promovido pelo centro espírita – Luz do céu.
Era danado, ele, sabia onde o povo escondia o garrafão e, escondido ia lá com uma caneca e entornava uma boa talagada e enchia a caveira dando uma golada de quase sair pelas narinas, ficando meio grogue logo em seguida, ai sim, ele se desvencilhava da timidez e partia para mexer com as garotas.
 5 -
Porém, por Jesus ser absurdamente feio e raquítico - como se fosse um daqueles ratos de deserto do filme de Ali babá -, com seus cabelos compridos, unhas sujas, e roupas rotas com seu pobre e pequeno pinto a toda hora saindo pelo buraco do pano da calça - como se fossem os das galinhas vazando as telas - sem que vise, nem as meninas ou Madalena chegavam perto dele. Por esse e outros fatos, o próprio menino queria até ser crucificado - devido tanta rejeição. O que talvez o salvasse de um suicídio, era que por ser virgem vivia sonhando em estar com Madalena naquele quintal imenso cheio de mamoneiras.
6 - 
Madalena era uma mulher formada, adulta e adultera. Seu marido ou amante – ninguém entendia aquele “rolo” dela – pois, só se via o camarada por ali, umas três ou quatro vezes por ano e isso, inclusive, fazia com que alguns dissessem que ela recebia pelos correios o dinheiro que ele lhe mandava para pagar suas despesas - mas como nem só de pão viverá o homem - alguém também já havia dito isso -, Madalena com todo aquele fogo na sarça, e, para não ser chamada de prostituta, fazia questão de nunca cobrar pelos seus desprendimentos benévolos, sem contar que ela adorava ser iniciadora dos meninos desvalidos – há de se entender que nesta época, prostitutas eram presas e tratadas a pauladas ou eram apedrejadas em vias públicas, quando não as duas coisas.
 7 -
Embora não fosse ela exatamente uma prostituta, mas uma benfeitora dos garotos desvalidos – se é que me entendem – às vezes ela exagerava, principalmente quando tomava uns goles de vinho do boteco do Tadeco e depois ia para algumas das festas e dançava fazendo trejeitos considerados obscenos por alguns, e assim, um dia desses, foi só uma pessoa tomar coragem para começar a gritar que todos gritaram também.
- Joga merda na Madá , joga pedra na Madá, ela é feita pra apanhar,
ela gosta é de dá e nunca quer parar.
 8 -
Mas, quem estava ali só espiando todo aquele bafafá? Isso mesmo, o menino Jesus no limiar de seus treze anos com a cara surgindo sua décima quinta espinha. E como a festa acontecia logo na esquina de sua casa, ele correu rapidamente a casa e pegou uma foice de seu pai, e se atirou na frente da pobre mulher e disse:
- Quem ousar a atirar a primeira pedra terá dobrado os seus pecados, porque eu lhe corto os sacos! Então só se via o povo se espalhando diante da fera que este pequeno menino se tornou. Parecia até um santo tomado de ódio a expulsar jogadores de dados em templos sagrados.
 9 -
Ele e Madalena rapidamente se foram em meios ainda a gritos de algumas pessoas ao longe, Madalena estava desorientada e quando ia entrando em sua casa, se voltou rapidamente porque se lembrou que devia agradecê-lo e lhe deu um beijo no rosto. Jesus que não esperava o carinho, nem teve chance de retribuir o agradecimento, mas para não perder a excitação, saiu apressado com toda aquela adrenalina. E ela se foi entrando correndo em casa e se jogando chorando na cama, adormeceu.
 10 -
Jesus, ao chegar a sua casa procurou guardar a foice sem que ninguém o visse, aliás, seu pai tinha muitas ferramentas de carpintaria, ele era muito bom na arte de fazer telhados com aqueles desenhos chamados de rabo de andorinhas. Muitas pessoas o procuravam para este trabalho, e ele, em especial morria de ciúmes desta foicinha que lhe fora dado por seu pai, avô de Jesus, há quase cinqüenta anos.
11 -
Já havia horas que o dia tinha amanhecido e Jesus assuntava pela Madalena e nada de vê-la. Ele já tinha ido as espreitas pela mamonal ver se a via. Mas Madalena poderia estar ainda dormindo, ou se escondia devido à vergonha do dia anterior. Enquanto isso, Jesus estava em pé escorado no mourão da cerca de sua velha casa e como alguns garotos brincavam de rodar piões na rua, ele os observavam e acabou por nem dar por fé que Madalena, lá da porta de sua cozinha o via, o observava, ali quieto.
12 -
Madalena, então, para chamar a sua atenção sem que ninguém notasse que era especialmente para ele, deu um assovio a esmo, colocando um dedo de cada mão no lado oposto do canto da sua boca e trinou o apito, alto, forte, logo ele levantou a cabeça e notou sua presença em pé na porta da cozinha. Olharam-se, ele e ela, por um instante e ela o acenou com a mão dando lhe um sinal de que devia ter com ela. Jesus então saiu dali como se olhasse para as cores das nuvens e disfarçando-se, sem que nenhum dos garotos o visse entrou pelo mamonal adentro.
13 -
Quando ele chegou junto da tela de arame, que divisava os terrenos dela e do mamonal, lá estava ela com uma caneca na mão. De dentro da vasilha, saia uma fumaça esbranquiçada do calor do leite com chocolate.
- Tome, fiz pra você! – disse esticando os braços longos, para passar por cima da grade de tela que os separavam. Jesus fez o mesmo e apanhou a caneca, depois deu uma assoprada e bebericou um gole.
-Ui... Está muito bom isso!
- Você gostou... Meu herói!
- Por causa de ontem? Perguntou, como se já soubesse a resposta, Jesus.
-Sim, meu bem, é claro!
- Ah... Foi nada! Não podia deixar aqueles bestas lhe matar...
- Fiquei muito sensibilizada com sua atitude de macho salvador...
- Ficou o quê?
- Feliz de te ver ali armado em minha frente pronto pra enfrentar aquela gente louca, onde já se viu... Bando de alucinados! Jesus a olhou sem entender direito suas palavras, enquanto tomava mais uma golada daquela delícia rara para ele. Ele era um menino bom e diferente, suas atitudes não eram tomadas racionalmente, mas por pura bondade, inerente.
14 -
Jesus acabou de tomar o leite com chocolate quente e levantou seu braço para devolver-lhe a caneca, e nesse momento, foi que ela, propositalmente segurou sua mão que segurava a vasilha, e com a outra mão pegou a outra mão dele; de modo que ele ficou seguro pelas mãos dela. Ela o olhou bem dentro de seus olhos, e Jesus então compreendeu, através do desejo que sentiu, que ela o estava seduzindo. Ela então foi se abaixando, e à medida que assim procedia, ele a acompanhava até que ambos ficassem totalmente rentes ao chão. Jesus tinha agora sua face totalmente avermelhada, pelo fogo que lhe subia e que lhe parecia vir de sua alma boa e condolente.
15 -
Madalena era uma mulher adulta – como já disse anteriormente -, e Jesus ainda um garoto, cuja sexualidade estava na flor da ascensão, porém, o que lhe estava acontecendo, era maravilhoso, divino, delicioso. Aquela sensação de regozijo lhe esparramava por todo o corpo, lhe dando uma leveza de espírito tal, que sentia que aquele prazer lhe daria a mesma sensação de viajar sobre nuvens e se esconder atrás das estrelas para brincar com alguns anjos
16 -
Madalena, sabiamente, arrastou as mãos dele até suas cochas e pode sentir elas tremularem sobre sua pele morena. Sentiu seus tremores como se fossem carícias a lhe escorrer para seus púbis. Fechou os olhos e ofereceu a Jesus, como se seu lábios fosse um cálice cheio de um vinho derramado pelos céus em suas bocas, e ele como a um santo, não os recusou, e sentiu-se assim, pela primeira vez, o que seria ser realmente humano. O que seria, de acordo como entendeu, o melhor prazer que teu Pai do céu, lhe dava como prova de todo o seu sacrifício de vida. O melhor dos prazeres!
17 -
Estavam agora em uma estase total, e simultaneamente, eles se achegavam para juntos, um do outro e da tela de arame que separavam seus corpos. Havia um respirar ofegante como se fossem os pobres pintinhos atravessando as frestas triangulares da tela: não eram; eram de verdades seus hálitos se misturando e se misturando, como se fossem ambos, espectral. Ela, já estava preparadamente sem suas calcinhas, e por baixo daquele vestido rodado, onde buscavam as mãos de Jesus sua melhor intimidade, um calor intenso penetrava em seus dedos...
18 -
Ela o arrastava contra a tela fria, ele a seguia e se impulsionava buscando chegar mais próximo dela e assim, ele se espremia contra a tela e ela se espremia contra ele. Suas bocas sangravam, sem que notassem por que o arame da tela, devido o frenesi os machucavam. Seu sangue misturou-es com o dela. De seus olhos, escorria dois pares de lágrimas e se misturavam entre os arames e as folhas das mamoneiras, por que naquele exato momento em que ambos saciavam-se, começava uma chuva fina sob um sol forte que brilhava intensamente, transformando todas as gotas de chuva em pingos de ouro, escorridos pelas folhas das mamoneiras e caindo em seus rostos suados...
19-
E foi assim, que Jesus, recebeu de Madalena, seu primeiro batismo de ser homem, tornando-o um ser humano, e, herói. Aquele que poderia ser o que quisesse ser, até mesmo um deus, por que um homem que descobre o prazer de ser homem poderá ser tudo, que quaisquer deuses ou deusa o tenham dado!
Fim.

O trabalho MADALENA E O SEMIDEUS - CONTO - deZéReys - poeta do profundo foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em
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zedosreys@gmail.com.



2 comentários:

  1. Belo conto amigo... Parabéns pela criatividade...bjos



    http://clarafernandopolis.blogspot.com.br/

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    1. Obrigado, amiga, pelo comentário, volte sempre!
      Beijo do poeta!

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A fé de uma pessoa está relacionada com aquilo que ela mais precisa, pois em caso contrário, ela não precisaria de nada.

ZéReys.